Chiado volta a estar na moda
Bairro ganhou uma nova dinâmica, mas são já poucas as lojas tradicionais que lhe deram fama Telma Roque
Não é o Chiado das memórias de infância, glamoroso, nem o Chiado degradado que o incêndio de há 20 anos ajudou a sepultar. É um bairro renascido que novos e velhos ainda escolhem para calcorrear ou encontrar a "fina flor" como diria Eça.
"As pessoas estão a acreditar no Chiado, que nunca perdeu o seu estatuto", assegura Vítor Silva, presidente da Associação de Valorização do Chiado. O responsável só não se conforma com a falta dos carros. Por ele, acabavam já as restrições de trânsito, mas António Costa, presidente da Câmara de Lisboa, não quer sequer ouvir falar no assunto.
"A rua Garrett tinha dois sentidos de trânsito e funcionava. E não me digam que há transportes públicos. Não há autocarros e os eléctricos resumem-se ao 28. O Chiado está numa zona íngreme. Ninguém quer ir para o metro e palmilhar tantas escadas com sacos", argumenta Vítor Silva.
O saudosismo pelo bulício automóvel ainda atinge grande parte dos lojistas, sobretudo os das casas tradicionais. "As pessoas habituaram-se a deslocar-se de carro para tudo", queixa-se Carlos Carvalho, da Luvaria Ulisses, a única casa do género que resta no país. "O metro levou as pessoas (as de passagem) para o subsolo", reforça, por seu turno, Alberto Sampaio, que há mais de 40 anos dirige a Joalharia do Carmo.
O fogo de há quase duas décadas engoliu, em poucas horas, oito séculos de história. Lojas de referência como a Casa Batalha, Grandella, Armazéns do Chiado, Valentim de Carvalho e a Martins & Costa desapareceram.
"Das casas directamente afectadas pelo fogo não ficou uma. É uma pena. O Chiado tem gente, movimento, mas precisava de ter mais eventos culturais", diz Carlos Carvalho. "São já poucas as lojas tradicionais. Umas desapareceram com o incêndio, outras mudaram de sítio, abrindo caminho a lojas de marcas de grandes grupos económicos, baratas, mas sem qualidade que o Chiado sempre deu aos seus clientes", lamenta Alberto Sampaio".
Para Margarida Dias Pinheiro, da Livraria Férin, o Chiado está melhor do que antes do incêndio, muito visitado e cheio de turistas. "Não é o Chiado da minha meninice, quando passear por aqui era um 'must', mas ainda é o 'down town' da cidade", considera. O pós-incêndio foi duro para todos. "Criou-se uma expectativa face à reconstrução. Depois as coisas caíram à boa maneira portuguesa. Faltou empenho político. O Chiado sem muitas das suas lojas-âncora perdeu referências, demorou a reerguer-se. Sempre fomos capazes de grandes rasgos, mas de pouca consolidação", defende.
Não houve indemnizações para a área não ardida e muitos dos milhões do Fundo Especial de Apoio à Reconstrução do Chiado (mais tarde Fundo Remanescente para a Reconstrução do Chiado) nunca saíram do cofre, ou porque os benefícios não eram atractivos ou por excesso de burocracia. O dinheiro acabou desviado para a requalificação da frente ribeirinha da cidade. O representante da Associação de Valorização do Chiado diz-se "chocado" com a opção.
O prédio que há mais de meio século acolhe o restaurante Palmeira, na Rua do Crucifixo, ardeu há 20 anos e continua por recuperar. Só o rés-do-chão se salvou da hecatombe. "Estivemos três meses fechados. Nunca fomos indemnizados. O meu pai morreu com a tristeza de nunca ter visto isto resolvido", lamenta Maria do Rosário Carapinha, filha do fundador. "Queremos fazer obras, melhorar o restaurante, mas estamos neste impasse", acrescenta António Rodrigues Pereira, sócio-gerente do Palmeira. O prédio foi adquirido pela Câmara de Lisboa. Esteve para ser a sede da Academia de Música de Lisboa, e uma residência assistida para idosos no mandato de Carmona Rodrigues. É intenção do actual executivo manter este projecto, mas não há data para avançar a obra.